Meus amigos

Li os textos antigos, todos empoeirados, algumas folhas rasgadas e com pontas dobradas, amassadas, anotações velhas. Numa das páginas havia um mancha de café, noutra senti cheiro de cigarro; havia bilhetes com desenhos engraçados, planos frustrados e, em uma delas, presa com um clipe de papel, havia uma fotografia com todos eles.

Sim, foram muitos e ainda serão mais, outros com o tempo, se você for pessimista como eu. Foram seis meses, um para cada um de nós, mas pareceu um ano inteiro e, mesmo assim, ainda seria pouco se realmente o tivesse sido.

Triste será a fotografia de quando nós conseguirmos alcançar o que nos uniu, um interesse em comum que, infelizmente, torna possível uma divergência, mas não é culpa nossa, nem de ninguém, é do tempo. Você, por exemplo, olhe para trás e conte quantos amigos já perdeu. Imagine, agora, quantos amigos eles também perderam, inclusive você; como eu disse, é inevitável, contudo, outros hão de vir e ir, assim como esses que você já não encontra mais pelas manhãs, ou “aqueles cujos números de celulares você não fez mais questão de manter na agenda o seu celular”.

Estes meus irão, sem dúvida alguma, independente do resultado que todos nós esperamos ou até dos planos que fazemos para o ano que vem. Irão, sem culpa, cada um para um lado, para um caminho diferente e, quem sabe, por aí, a gente se encontra por acaso, num consultório médico ou de psicologia, escritório jurídico ou analisando “argilas marinhas com intercalações de bombas-vulcânicas” (“whatever!”).

No final vai sobrar saudade até das horas mais chatas, quando não havia assunto, comentário oportuno, com quem fazer piada; vai sobrar lembrança de piadinhas internas, risadas altas e daqueles momentos em que todo mundo para de falar forte, exceto você; vai sobrar saudade de alguém que senta na carteira da frente e falta em véspera de prova, de quem senta na carteira do lado e não pára de falar – um minuto sequer – e acha legal ligar a cobrar para os amigos; vai ter saudade de quem senta lá do outro lado da sala e que gosta das carteiras bem alinhas para poder transitar livremente entre as fileiras; vai sobrar, também, de quem não é da “sala que sempre teve os melhores resultados dos simulados”, que é do Amapá, quer ser médico e fica tonto com cheiro de sangue, e de quem mal freqüenta as aulas e quer um homem como presente de natal.

Vou guardar a fotografia para sempre e mesmo que eu a esqueça em uma caixa qualquer ou bolso de calça, ela estará lá na memória, intocada, exatamente como eu não esperava que fosse, mas que, para a minha sorte, talvez tenha sido. Se eles guardarão também? Isso não importa, pois serão, nesses nossos momentos e para sempre, meus amigos.

 

“There are places I remember
All my life though some have changed
Some forever not for better
Some have gone and some remain

All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead and some are living
In my life I’ve loved them all [...]“

p.s: não resisti colocar esse trecho de “In My Life”, dos Beatles. XD

A poesia e o poeta

O poeta percebe e anota em um papel o que os olhos não conseguem fotografar. Liberta-se na folha em branco como se conseguisse abafar o barulho ensurdecedor dos pensamentos na cabeça.

Quem conhece, diz que é um monge confinado em filosofias pitorescas e longos espaços de tempo, que mora com cachorro vira-lata e é um homem amigável como as abelhas são para as flores. Enganam-se: o poeta não pode se render às alegrias, pois qual alegria, egoísta e embriagante, dividirá o seu caso amoroso com a tinta e o papel, com a poesia? Por conta disso, ele perde-se nos longos e macios cabelos da boemia noturna nas esquinas mal freqüentadas, com cigarros, uísque e mulher baratos.

É pretensioso, pálido e hostil. Tudo que vê e escuta, que cheira e toca, vira palavra, descrição pessoal. Vai do amor ao desgosto eterno em uma única estrofe e faz um soneto: “Ode à Solidão”, orgulhoso de não ser feliz como a mãe desejou que fosse.

Motivado pela infelicidade, nunca disse amar alguém ou algo que não fosse fictício. Costuma dizer que as personagens e objetos não machucam como a realidade, já que as coisas não podem sentir e as personagens o amam por terem sido criadas para este fim. Por isso, não chora ou chateia-se; por isso escreve e inventa as emoções que ele mesmo recusa-se a sentir.

“O poeta só se apaixona uma única vez na vida” é o que ele diz. “Apaixona-se, primeiro, pelas linhas horizontais e limpas de um papel, depois, em ver que a felicidade é improdutiva, conhece as mentiras e solidões modernas e acaba loucamente apaixonado pelos descasos da sua vida, pela tristeza”.

Inspira-se na triste solidão, musa eterna de quem desistiu do próprio mundo, e a desenha em estrofes, admirando-a como se tomasse a forma de um corpo feminino, cujos quadris são as rimas, os cabelos são a tinta em forma de letra e os olhos são o suspirar de um ponto final.

Fato do dia

E pra quem achava que conhecia João, aqui está uma notícia surpreendente: ontem, por volta das 11 da noite, o rapaz foi encontrado morto no seu apartamento. Durante as investigações, foram encontrados uma arma escondida sob o sofá da sala e guardanapos de papel sujos de sangue na cozinha.

O menino tímido e magrelo da sexta série ainda sorria de má vontade no retrato antigo que ficava sobre o um piano velho que herdou da avó já falecida, Dona Alcinda, que, por azar, foi atropelada e morta no dia em que completava 100 anos de idade. Na fotografia velha, brilhava o vermelho do sangue de João e, bem ao lado do porta-retrato de bronze, uma navalha suja fazia companhia ao maço de cigarros que ele fumara antes.

Sua noiva, Ângela, acreditou que o irmão do próprio amado, Camilo Nogueira de 27 anos, teria cometido o assassinato. Ao chegar no apartamento que os dois dividiam a 3 anos, Ângela, que encontrava-se grávida, sofreu um aborto imediato.

A mãe de João, inconsolável, contou como seus dias serão mais solitários sem as visitas diárias do rapaz, já que o filho mais velho, Camilo, afastou-se da família a alguns anos, e o marido, Américo Nogueira, encontra-se em coma no hospital devido a um derrame sofrido no último ano.

Durante 2 anos os irmãos não se falavam por causa de problemas na empresa em que eram sócios. João sonegara impostos sem o conhecimento do irmão durante todo o tempo e parecia ter um caso amoroso com a cunhada. Por motivos óbvios, Camilo teria toda a razão para não gostar do próprio irmão e, aparentemente, cometeu o assassinato na noite anterior. Ninguém conseguiu falar com o rapaz até então, somente com a sua esposa, Marcela Nogueira, que desconhece o paradeiro do próprio marido e nega qualquer boato de que teria se envolvido com o cunhado.

No enterro de João Nogueira compareceu apenas Ângela, a mãe e a cunhada Marcela com os dois filhos. O rapaz falecido não tinha amigos no trabalho devido a sua rispidez no escritório e, das amizades que possuía fora da empresa, nenhuma compareceu a cerimônia realizada num domingo de céu escuro e chuvoso.

Camilo ainda não foi encontrado. Nem ele, nem o dinheiro.

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Jéssica M.

Estudante, 18 anos, "achista" profissional. Escreve, lê e odeia dissertações. Gosta de música, é beatlemaníaca e adora indiretas. Não é engraçada, engajada e muito menos esforçada, mas faz tudo que gosta com carinho, mesmo sabendo que faz mal. Uma escritora de crônicas metida à crítica.

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